O meu corpo vagueia translucido pela cidade.
Reconheço rostos que sorriem amigavelmente em tom de reconhecimento, perco-me tristemente nesses momentos. Três passos na calçada irregular e respiro fundo.
Os sítios que conheço tornaram-se sujos e impessoais, amo-os mas temo regressar sempre de todas as vezes. Usados, gastos, hábitos de pessoas que os violam e perco mais um pouco da minha inocência.
Deitar-me no chão, percorrerem-me palavras e sons que não são meus mas que ficam em mim.
Deixar-me assim para sempre, indefinidamente, sem tempo sem lugar, transparente e imóvel.
Abstrair-me de toda a hipocrisia que me invade e da qual eu corro e fujo.
Esquecer-me de tudo, esquecer e enganar-me, tentando recuperar dentro daquilo que sou apenas aquilo com que quero ficar.
Abomino-te, enoja-me o teu corpo, a tua alma podre, a tua ignorância, a apatia que te enche, o rosto morto. O teu perfil vazio.
Quero sair de mim ao pensar que te desejo ter, quero apagar a minha memória de ti, esquecer que alguma vez te conheci.
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